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janeiro 26, 2005
Soror Mariana Alcoforado
Ignoro por que motivo te escrevo...
de Henri Matisse
Vejo que apenas terás dó de mim, e eu rejeito a tua compaixão, e nada quero dela;
Enfado-me contra mim mesma, quando faço reflexão sobre tudo o que te sacrifiquei...
Perdi a minha reputação; expus-me aos furores de meus pais e parentes, às severas leis deste Reino contra as religiosas...
e à tua ingratidão, que me parece a maior de todas as desgraças...
Ainda assim eu sinto que os meus remorsos não são verdadeiros, e que do íntimo do meu coração quisera ter corrido muito maiores perigos por Amor de ti, e provo um funesto prazer de ter arriscado por ti vida e honra.
Tudo o que me é mais precioso não devia eu entregá-lo à tua disposição?...
E não devo eu ter muita satisfação de o ter empregado como fiz?...
Parece-me até não estar contente, nem dás minhas mágoas, nem do excesso de meu Amor, ainda que, ai de mim! não possa, mal pecado, lisonjear-me de estar contente de ti...
Vivo, e como desleal, faço tanto por conservar a vida, quanto perdê-la!...
Morro de vergonha... acaso a minha desesperação existe somente nas minhas ?...
Se eu te amasse com aquele extremo que milhares de vezes te disse, não teria eu já de longo tempo cessado de viver?...
Enganei-te... tens toda a razão de queixar-te de mim... Ah ! por que não te queixas?...
Vi-te partir; nenhumas esperanças posso ter de mais ver-te. e ainda respiro!... É uma traição...
Peço-te dela perdão.
Mas não mo concedas...
Trata-me rigorosamente.
Não julgues os meus sentimentos veementes...
Sê mais difícil de contentar...
Ordena-me nas tuas cartas que morra de Amor por ti...
Oh! conjuro-te de me dares esse auxílio para poder vencer a fraqueza do meu sexo, e pôr termo às minhas irresoluções, por um golpe de verdadeira desesperação.
Um fim trágico obrigar-te-ia, sem dúvida, a pensar muitas vezes em mim...
A minha memória te seria cara, e quiçá esta morte extraordinária te causaria uma sensível comoção.
E a morte não é porventura preferível ao estado a que me abaixaste?...
Adeus!
Muito quisera nunca haver posto os olhos em ti.
Ah! sinto vivamente a falsidade deste sentimento, e conheço neste mesmo instante em que te escrevo, quanto prefiro e prezo mais ser infeliz amando-te, do que não te haver jamais visto.
Cedo sem murmurar à minha malfadada sorte, já que tu não quiseste torná-la melhor. Adeus.
Promete-me de conservar uma terna e maviosa saudade de mim, se eu falecer de dor; e assim possa ao menos a violência da minha paixão, inspirar-te desgosto e afastar-te de tudo!
Esta consolação me será suficiente, e, se é força que te abandone para sempre, desejara muito não deixar-te a outra.
Dize, não seria nímia crueldade a tua, se te servisses da minha desesperação para, pareceres mais amável, mostrando que acendeste a maior paixão que houve no mundo?
Adeus outra vez...
Escrevo-te cartas excessivamente longas, o que é uma falta de consideração para ti: peço-te mil perdões, e atrevo-me a esperar que terás alguma indulgência para com uma pobre insensata, que o não era, como tu bem sabes, antes de amar-te.
Adeus.
Parece-me que demasiadas vezes me dilato em falar do estado insuportável em que estou.
Contudo agradeço-te, do íntimo do meu coração, a desesperação que me causas, e aborreço o sossego em que vivi antes de conhecer-te...
Adeus.
A minha paixão cresce a cada momento.
Ah! quantas cousas tinha ainda para dizer-te!...
Mariana Alcoforado nasceu em Beja em 1640, com onze anos, é obrigada a entrar para um convento, a fim de ficar a salvo do brutal conflito provocado pela guerra com Espanha. Impotente face à irrevogável decisão do pai, Mariana submete-se, mas anseia pelo dia em que poderá regressar ao seio da família e à liberdade da vida real. Até que um regimento francês chega à cidade: o belo rosto de um oficial a cavalo, uma fortuita troca de olhares e, por fim, o encontro. Mariana, já quase com vinte anos, deixa-se dominar por uma paixão cega e inflamada. Introduzindo-se secretamente na sua cela durante várias noites seguidas, o Capitão Bouton dá-lhe a conhecer o amor físico, proporcionando-lhe o primeiro grande êxtase da sua vida. Mas a notícia dessa relação rapidamente se difunde e causa escândalo. Bouton é mandado regressar a França. Destruída, Mariana escreve-lhe, sem resposta, cartas extraordinariamente belas e apaixonadas. faleceu na Cidade de Beja em 1723.
Publicado por Maria Branco às janeiro 26, 2005 12:06 AM
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Comentários
Sempre gostei desses romances antigos,apesar de que eram mt tristes e as mulheres sofriam mt.Essa carta ta mt bonita e ve-se q era uma mulher mt apaixonada e mt triste.infelizmente faleceu assim.. beijokas maria. Espero q tu sejas semrpe feliz.
Publicado por: andrye em janeiro 27, 2005 02:35 PM
Esta não foi uma história com final feliz. Beijos e fica atenta ao teu mail porque vou mandar uma coisa e quero que me respondas tá.
Publicado por: L.M em janeiro 27, 2005 02:31 PM
Obrigado Maria por nos recordares Mariana Alcoforado!... as suas cartas, são um marco incontornável do romantismo. Belissimo!...
Beijo grande
Publicado por: Frog em janeiro 27, 2005 01:14 PM
Mais uma Alentejana de alma e escrita imensa!
Beijinho grande, Maria :)
Publicado por: Sónia em janeiro 27, 2005 08:43 AM
Pobre e grande Mariana, cobardemente abandonada!
E como sempre embirrei com a vileza desse marquês de Chammilly.. (que ele recebeu ao que consta, duas das cartas!)
Bonita homenagem, Maria!
Beijo amigo
Publicado por: aguas de marco em janeiro 27, 2005 08:12 AM
O Amor não conhece tempos! Queria agradecer também o"link"!.. Apesar de não ter posto o teu no meu blog.. :/ mas vou já fazê-lo! Até amanhã! **
Publicado por: M.P. em janeiro 26, 2005 11:53 PM
Maria
consta que todas as Cartas de amor são ..
Alvaro envia um grande beijo para ti
eu Beijocas
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
Álvaro de Campos, 21-10-1935
Publicado por: Lmatta em janeiro 26, 2005 11:48 PM
Ah Maria, fiquei com dó dela. Um amor assim merecia ter um final feliz. Não gosto de finais tristes. Dói muito...
Qto ao meu texto não tem nada a ver comigo, ok? Estou p/ lá de feliz... p/ láááááááá´... kkkkk...
Beijokas e adorei esta carta, pena que não temos resposta.
Publicado por: anne em janeiro 26, 2005 11:27 PM
Belas, tristes, apaixonadas, românticas, "marcadas" pela época em que foram escritas... Não sei! Sei que gosto sempre de ler as cartas de Mariana Alcoforado. Incorrigível romantismo, se calhar! :) Beijinhos, Maria
Publicado por: lique em janeiro 26, 2005 11:14 PM
{ ... ah! quantas cartas já eu escrevi […] ah! quantas cartas já eu rasguei;tentei [] mas nenhuma assim [como esta] eu recebi; escrevi © pipetobacco ... }
Publicado por: pipetobacco em janeiro 26, 2005 10:24 PM
linda esta carta... lindo o amor que a inspira...
obrigada pelas palavras lindas que me deixaste!
veremos se aguento a minha "travessia do deserto", agora é preciso que a faça.
um beijo grande.
Publicado por: pandora em janeiro 26, 2005 09:58 PM
A soror vai ser sempre a inspiração dos apaixonados. Será que antes se sofria mais por amor, Maria? Beijos, noite feliz
Publicado por: yardbird em janeiro 26, 2005 09:58 PM
Fantástica, ela, não é (terá sido)?
E tu, também. Obrigado pela(s) carta(s)....
Beijos e uma noite santa.
Publicado por: Viajante em janeiro 26, 2005 09:09 PM
O amor é belo, mas também dorido... muito dorido. Adorei.
Publicado por: polittikus em janeiro 26, 2005 02:35 PM
Quando passo por aqui, fico melhorado, com a beleza que escreves ou publicas. Não te largo!
Publicado por: Imaginário em janeiro 26, 2005 12:26 PM
Romântica senhora essa soror.
Vale a pena ler-lhe as cartas.
:)
Bjs.
Publicado por: náufrago em janeiro 26, 2005 12:07 PM
" E é amar-te assim perdidamente"
o amor, sempre doloroso mas belo, grandioso
Um grande beijo Maria*****
Rose
Publicado por: Black Rose em janeiro 26, 2005 11:47 AM
Mesmo sem quereres, acertaste-me em cheio. Estas palavras gritam cá no fundo num eco lancinante do que leio e do que vivo nos dias presentes. Que pontaria...
Publicado por: Ricardo Garcia em janeiro 26, 2005 11:10 AM
Arrepiante!
Que fraco o Amor, que se sente.
Que forte o Amor, que se diz.
Paixões... de Vida... vivos
Beijo Maria
Publicado por: partilhas em janeiro 26, 2005 10:47 AM
Gostava eu de saber escrever assim, Mariana...perdão, Maria!;) É que estou a vê-la autora de uma missiva semelhante em semelhantes circunstâncias. Beijinho grande.
Publicado por: Emilio de Sousa em janeiro 26, 2005 10:10 AM
Como sempre, uma escolha de grande sensibilidade e mestria.
Parabéns.
Gostei tanto das surpresas desta noite.Esta incluida.
Um beijo
Publicado por: antonio san em janeiro 26, 2005 01:55 AM
Uma história triste, que nunca vai acabar.
Mas o sentimento está lá... no seu estado mais puro.. parabéns por teres compartilhado essa relíquia.
Publicado por: Esquizo em janeiro 26, 2005 01:16 AM
lindo. o amor. forte. longe do senso comum. e como poucas vezes é (pode?) ser escrito. obrigado, não conhecia o texto, e adorei. bjs
Publicado por: Luís em janeiro 26, 2005 01:16 AM
Lindo, Maria!
Fiquei sem palavras ao ler esta carta... Que Amor, que paixao, que tudo...
Belissima escolha, grande amiga!
Muitos beijos!
Publicado por: Carmem Lucia Vilanova em janeiro 26, 2005 01:04 AM
A história de Mariana Alcoforado é trágica. Tem no entanto a beleza e a grandeza de todos os amores clássicos da história da literatura. Com a "pequena" diferença de ser real... foi uma boa ideia trazeres aqui esta carta. Beijos, amiga.
Publicado por: ognid em janeiro 26, 2005 12:58 AM
Uma mulher de grande coração com uma história linda e demasiado triste...
Jinhos...só mesmo tu para descobrires palavras tão bonitas.
Publicado por: Blue em janeiro 26, 2005 12:45 AM
O Amor, sempre ele, mesmo aprisionado por paredes e grades, mesmo ignorado e maltratado, encontra sempre a sua forme livre e incondicional de se mostrar.
um beijo grande
Publicado por: Pedro Emanuel em janeiro 26, 2005 12:35 AM