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janeiro 26, 2005

Sonho...

Entra e tira o teu agasalho.

Está tanto frio...
Entranhou-se-me até quase às raízes do sentir enquanto te esperava.
Agora que aqui estás, quente que és na tua presença, conforta-me pois preciso tanto.
Já não distingo o corpo da alma, tal é o estado de algidez em que me encontro.

Os troncos que pus na lareira riem-se de mim e recusam-se a arder.
Só o teu abraço me providenciará algum alívio.
Senta-te aqui e recebe-me no teu colo...
Envolve-me com os teus braços e o teu olhar.
Aqueles, aquecer-me-ão o corpo e este o coração.

Deixa-me adormecer assim no teu regaço para que sonhe o que aqui te conto.

Maria

Quando vir vaguear o corpo da noite
dançante, por entre os cascos da bruma,
virei até à janela que se despenha
no jardim das palavras.

Pedirei à sombra que me conceda ainda o verso
o verso sujo, lâmina ou centelha
ateando a manhã, entre o café
e este lume do silêncio,
a arder pela flor da giesta.

Não mais cantar senão o ar
ou as mãos que poisam, tão quietas
detentoras de incerteza, apenas.
Ficar assim, no olhar destas vidraças
onde julgo ver a vida que sonho ser.

Maria João cantinho


Sobre a autora:

Maria João Cantinho nasceu em 1963, em Lisboa. Viveu em Angola até à adolescência e regressou a Portugal, após a independência de Angola. Licenciou-se e realizou a dissertação de mestrado em filosofia, na área de estética. É professora no ensino secundário. Colaborou na revista Livros, na revistas on-line Crítica - Central de Cultura e é membro do conselho editorial da Storm Magazine no jornal de poesia Hablar/Falar de Poesia, pela parte da Casa Fernando Pessoa. No ano de 2001 publicou o livro de contos A Garça. Em 2002, publicou o livro de poesia Abrirás a Noite com um Sulco, ao qual foi atribuída uma menção honrosa no prémio da Associação Fernando Pessoa. Tem publicações diversas, no âmbito de prémios literários e menções honrosas, nas modalidades de conto e poesia.

Publicado por Maria Branco às 08:41 PM | Comentários (32) | TrackBack

Soror Mariana Alcoforado


de Henri Matisse

Ignoro por que motivo te escrevo...
Vejo que apenas terás dó de mim, e eu rejeito a tua compaixão, e nada quero dela;
Enfado-me contra mim mesma, quando faço reflexão sobre tudo o que te sacrifiquei...
Perdi a minha reputação; expus-me aos furores de meus pais e parentes, às severas leis deste Reino contra as religiosas...
e à tua ingratidão, que me parece a maior de todas as desgraças...
Ainda assim eu sinto que os meus remorsos não são verdadeiros, e que do íntimo do meu coração quisera ter corrido muito maiores perigos por Amor de ti, e provo um funesto prazer de ter arriscado por ti vida e honra.
Tudo o que me é mais precioso não devia eu entregá-lo à tua disposição?...
E não devo eu ter muita satisfação de o ter empregado como fiz?...
Parece-me até não estar contente, nem dás minhas mágoas, nem do excesso de meu Amor, ainda que, ai de mim! não possa, mal pecado, lisonjear-me de estar contente de ti...
Vivo, e como desleal, faço tanto por conservar a vida, quanto perdê-la!...
Morro de vergonha... acaso a minha desesperação existe somente nas minhas ?...
Se eu te amasse com aquele extremo que milhares de vezes te disse, não teria eu já de longo tempo cessado de viver?...
Enganei-te... tens toda a razão de queixar-te de mim... Ah ! por que não te queixas?...
Vi-te partir; nenhumas esperanças posso ter de mais ver-te. e ainda respiro!... É uma traição...
Peço-te dela perdão.
Mas não mo concedas...
Trata-me rigorosamente.
Não julgues os meus sentimentos veementes...
Sê mais difícil de contentar...
Ordena-me nas tuas cartas que morra de Amor por ti...
Oh! conjuro-te de me dares esse auxílio para poder vencer a fraqueza do meu sexo, e pôr termo às minhas irresoluções, por um golpe de verdadeira desesperação.
Um fim trágico obrigar-te-ia, sem dúvida, a pensar muitas vezes em mim...
A minha memória te seria cara, e quiçá esta morte extraordinária te causaria uma sensível comoção.
E a morte não é porventura preferível ao estado a que me abaixaste?...
Adeus!
Muito quisera nunca haver posto os olhos em ti.
Ah! sinto vivamente a falsidade deste sentimento, e conheço neste mesmo instante em que te escrevo, quanto prefiro e prezo mais ser infeliz amando-te, do que não te haver jamais visto.
Cedo sem murmurar à minha malfadada sorte, já que tu não quiseste torná-la melhor. Adeus.
Promete-me de conservar uma terna e maviosa saudade de mim, se eu falecer de dor; e assim possa ao menos a violência da minha paixão, inspirar-te desgosto e afastar-te de tudo!
Esta consolação me será suficiente, e, se é força que te abandone para sempre, desejara muito não deixar-te a outra.
Dize, não seria nímia crueldade a tua, se te servisses da minha desesperação para, pareceres mais amável, mostrando que acendeste a maior paixão que houve no mundo?
Adeus outra vez...
Escrevo-te cartas excessivamente longas, o que é uma falta de consideração para ti: peço-te mil perdões, e atrevo-me a esperar que terás alguma indulgência para com uma pobre insensata, que o não era, como tu bem sabes, antes de amar-te.
Adeus.
Parece-me que demasiadas vezes me dilato em falar do estado insuportável em que estou.
Contudo agradeço-te, do íntimo do meu coração, a desesperação que me causas, e aborreço o sossego em que vivi antes de conhecer-te...
Adeus.
A minha paixão cresce a cada momento.
Ah! quantas cousas tinha ainda para dizer-te!...

Mariana Alcoforado nasceu em Beja em 1640, com onze anos, é obrigada a entrar para um convento, a fim de ficar a salvo do brutal conflito provocado pela guerra com Espanha. Impotente face à irrevogável decisão do pai, Mariana submete-se, mas anseia pelo dia em que poderá regressar ao seio da família e à liberdade da vida real. Até que um regimento francês chega à cidade: o belo rosto de um oficial a cavalo, uma fortuita troca de olhares e, por fim, o encontro. Mariana, já quase com vinte anos, deixa-se dominar por uma paixão cega e inflamada. Introduzindo-se secretamente na sua cela durante várias noites seguidas, o Capitão Bouton dá-lhe a conhecer o amor físico, proporcionando-lhe o primeiro grande êxtase da sua vida. Mas a notícia dessa relação rapidamente se difunde e causa escândalo. Bouton é mandado regressar a França. Destruída, Mariana escreve-lhe, sem resposta, cartas extraordinariamente belas e apaixonadas. faleceu na Cidade de Beja em 1723.


Publicado por Maria Branco às 12:06 AM | Comentários (27) | TrackBack

janeiro 24, 2005

...

Hoje sou a chuva que te acaricia
O sol que te aquece a alma,
Hoje sou a brisa que te afaga a pele.
Sou a noite que te solta o sonho
E o dia que te alimenta a esperança.
O sorriso de todo o bem que sabe,
A gargalhada do prazer satisfeito.
Mas também sou a melancolia da carência de ti
O soluço da tua ausência
E a lágrima do teu desespero .

Sou aquela que te ama...

Maria


Começa a entardecer. Amor, é tarde...
- Descansa no meu peito a tua fonte,
e vê o Sol baixando no horizonte,
em chamas de ouro, como brilha e arde.

Agora, resignados, sem alarde,
vamos descendo a encosta deste monte.
- Já não tenho mais versos que te conte,
e nem um verso eterno em que te guarde!...

Calam-se os passarinhos no arvoredo.
- É a noite que vem. Não tenhas medo.
Acabaram-se os cantos festivais.

Silêncio. Solidão. Ninguém se afoite...
Anoitecer que importa, se é de noite
que os beijos de quem ama sabem mais.

Espinola de Mendonça


Sobre o Autor:
Francisco Espinola de Mendonça nasceu em Ponta Delgada em 1891 e faleceu na mesma cidade em 1944. De 1910 a 1915 frequentou o curso superior de letras, formando-se em Filologia Românica. Publicou em 1910 Rosiclares, em 1931 Canções do lar e outros Poemas, 1937 Sicómoro, e a recolha póstuma de gerânios em 1945.


Publicado por Maria Branco às 05:38 PM | Comentários (31) | TrackBack

janeiro 23, 2005

Sol de ti.. [em mim]

Deixa que os meus olhos se fechem
E confiem um minuto nos teus...

Olha por mim, proteje o meu sonho
Vigia o meu descanso e afasta-me de todas as mágoas
Com os teus beijos apaga as lágrimas que correm pelo
meu rosto
Envolve-me nos teus braços e,
cuida de mim
Preciso do teu apoio, do teu abraço,
do teu sentido
Deixa-me descansar e,
Adormecer no teu peito

Deixa que os meus olhos durmam
nos teus...

Deixa-me sonhar
Deixa que sonhe com a tua boca
Com as tuas mãos, com os teu beijos,
Com teu corpo na minha pele
Com o teu calor a queimar-me por dentro
Com tudo o que quero de ti

Deixa que os meus olhos despertem
com o sol a romper nos teus olhos...

Maria


Antecipação de TCA

Tu choravas e eu ia apagando
com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas
– riscos na areia mole e quente do teu rosto.
Choravas como quem se procura.
E eu descobria mundos, inventava nomes,
enquanto ia espremendo com as mãos
o meu sangue todo no teu sangue.

Não sei se o mundo existia e nós existíamos realmente.
Sei que tudo estava suspenso,
esperando não sei que grave acontecimento,
e que milhares de insectos paravam e zumbiam nos
meus sentidos.
Só a minha boca era uma abelha inquieta
percorrendo e picando o teu corpo de beijos.

Depois só dei pela manhã,
a manhã atrevida
entrando devagar, muito devagar e acordando-me.
Desviei os meus olhos para ti :
ao longo do teu corpo morriam as estrelas.
A noite partira. E, lentamente,
o sol rompeu no céu da tua boca.

Albano Martins

Sobre o Autor:
Albano Martins nasceu em 1930 na aldeia do Telhado (Fundão). Licenciado em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi professor do Ensino Secundário de 1956 a 1976. Tendo ingressado, em 1980, nos quadros da Inspecção-Geral de Ensino, passou, em 1993, à situação de aposentado. Presentemente, é professor na Universidade Fernando Pessoa, do Porto.


Publicado por Maria Branco às 12:00 AM | Comentários (30) | TrackBack

janeiro 21, 2005

Partilhas Cúmplices ...( Em viagem)


Cúmplice idade, cidade que me trouxe em ti aldeia.

Partilha de sempre, nascida hoje.

Em teu país viajo transportando-me na tua boca

Terras que visito com nomes que se escrevem
com as palavras amor, esperança
... sempre em frente, louca viagem.

Voragem do estarmos, assim!


Dedicado pelo Anjo Élico

(The Kiss de Gustav Klimt)


Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar."

Miguel Torga - 1962


Publicado por Maria Branco às 05:53 PM | Comentários (28) | TrackBack

janeiro 20, 2005

Bernardo Soares


Lisboa, Praça dos Restauradores - 1960


Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspiração e um livramento, aquelas frases simples de Caeiro, na referência natural do que resulta do pequeno tamanho de sua aldeia. Dali, diz ele, porque é pequena, pode ver-se mais do mundo do que da cidade; e por isso a aldeia é maior que a cidade...

Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.

Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo.

"Sou do tamanho do que vejo!"Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. "Sou do tamanho do que vejo!" Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas que se reflectem nele e, assim, em certo modo, ali estão.

E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objectiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando. "Sou do tamanho do que vejo!" E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro do horizonte.

Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvageria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da matéria vazia.

Mas recolho-me e abrando-me. "Sou do tamanho do que vejo!" E a frase fica sendo-me a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer.

"O Livro do Desassossego"

Publicado por Maria Branco às 07:54 PM | Comentários (28) | TrackBack

janeiro 19, 2005

Canto [te]

Quero cantar-te todos os pássaros do céu
e todas as borboletas do canteiro
Onde brotam as flores que cultivamos juntos.
Quero cantar-te todas as ondas do mar
e todas as dunas que cresceram sobre nós
Quando dormimos na praia nus e saciados.
Quero cantar-te sem palavras supérfluas
todas as odes ao amor de todos os poetas
Que por ele morreram.
E ao adormeceres ao som do meu canto
que o teu sonho se não distinga
da minha realidade futura.

Maria

Canto-te para que tu definitivamente existas
Canto o teu nome porque só as coisas cantadas
realmente são e só o nome pronunciado inicia
a mágica corrente
Canto o teu nome como o homem fazia eclodir
o fogo do atrito das pedras
Canto o teu nome como o feiticeiro invoca
a magia do remédio
Canto o teu nome como um animal uiva
de
Como os animais pequenos bebem nos regatos depois
das grandes feras
Canto-te
e tu definitivamente existes nos meus olhos
Sempre abertos porque é sempre os meus olhos
são os olhos da criança que nós somos sempre
diante da imensidão do teu espaço

Canto-te
e os meus olhos sempre abertos são a pergunta
instante pendente de eu te interrogar
e interrogo as coisas em seu ser noctumo
em seu estar sombriamente presentes na tua claridade
obscura
E como é sempre
meus olhos abertos prescrutam-te
símbolo de tudo o que me foge
como apertar o ar dentro das mãos
e querer agarrar-te
oh substância
Canto-te
Para que tu existas
E eu não veja mais nada além de ti

Ana Hatherly


Publicado por Maria Branco às 07:55 PM | Comentários (30) | TrackBack

janeiro 18, 2005

Afrodite...

Vê-me subir no horizonte, nua, esculpindo a minha forma no anil do céu
Sou como uma virgem emergindo das águas
E vogando pelo azul claro lembro uma etérea Afrodite feita de espuma.
Vê ondular o meu torso de contorno incerto
Onde a aurora cobre de rosas o meu ombro acetinado.
Os tons brancos de mármore e de neve de minha pele fundem-se amorosamente
Como se de uma pintura em claro-escuro se tratasse.
Pairo na luz da manhã, aqui no alto, reflectindo a beleza original,
Voa até mim e beija-me sem tempo marcado.
Abre a tua alma ao Ideal e dá todo este céu ao teu coração.
Que ames uma nua, que ames uma mulher!
O importante é amar…

Maria
(publicado no extinto (re)Criando)

Formosa.
Esses peitos pequenos, cheios.
Esse ventre, o seu redondo espraiado!
O vinco da cinta, o gracioso umbigo, o escorrido
das ancas, o púbis discreto ligeiramente alteado,
as coxas esbeltas, um joelho único suave e agudo,
o coto de um braço, o tronco robusto, a linha
cariciosa do ombro...
Afrodite, não chorei quando te descobri?
Aquele museu plácido, tantas memórias da Grécia
e de Roma!
Tantas figuras graves, de gestos nobres e de
frontes tranquilas, abstractas...
Mas aquela sala vasta, cheia, não era uma necrópole.
Era uma assembleia de amáveis espíritos, divagadores,
ente si trocando serenas, eternas e nunca
desprezadas razões formais.
Afrodite, Afrodite, tão humana e sem tempo...
O descanso desse teu gesto!
A perna que encobre a outra, que aperta o corpo.
A doce oferta desse pomo tentador: peito e ventre.
E um fumo, uma impressão tão subtil e tão
provocante de pudor, de volúpia, de
reserva, de abandono...
Já passaram sobre ti dois mil anos?
Estranha obra de um homem!
Que doçura espalhas e que grandeza...
És o equilíbrio e a harmonia e não és senão corpo.
Não és mística, não exacerbas, não angústias.
Geras o sonho do amor.
Praxíteles.
Como pudeste criar Afrodite?
E não a macerar, delapidar, arruinar, na ânsia de
a vencer, gozar!
Tinha de assim ser.
Eternizaste-a!
A beleza, o desejo, a promessa, a doce carne...

Irene Lisboa

Publicado por Maria Branco às 02:29 PM | Comentários (30) | TrackBack

janeiro 16, 2005

África no corpo e na alma...

Os teus defeitos são graças
desse mistério profundo...
Saudade de duas raças
que se abraçaram no mundo!

Tomaz Vieira da Cruz (Angola)

"Poema para a Negra"

Deixa que os outros cantem o teu corpo
que dizem feiticeiro e sedutor,
e, na volupia vã do pitoresco,
entoem madrigais á tua dor.

Deixa que os outros cantem teus requebros
nos passos de massemba e quilapanga,
e teus olhos onde há noites de luar,
e teus beiços que teem sabor de manga.

Deixa que os outros cantem os teus usos
como aspectos formais da tua graça,
nessa conquista facil do exotismo
que dizem descobrir na nossa raça.

Deixa que os outros cantem o teu corpo,
na captaçãoo atonita do viço
e fiquem sempre, toda a vida, a olhar
um muro de mistério e de feitiço...

Deixa que os outros cantem o teu corpo
- que eu canto do mais fundo do teu ser,
ó minha amada, eu canto a propria África,
que se fez carne e alma em ti, mulher!

"Quando surges na noite..."

Quando surges na noite, quando avanças
porque o som do batuque por ti chama,
teu corpo negro é chama que me inflama,
quando surges na noite, quando danças...

Quando danças, cantando as esperanças
e os desesperos todos de quem ama,
teu corpo negro é fogo que derrama
febre nas almas que repousam mansas.

Tu vens dançando (tudo em mim se agita)
e vens cantando (tudo em mim já grita),
quando surges em noite de queimada...

Depois, somos os dois, no mesmo abraço,
num batuque só nosso, num compasso
mais febril do que toda a batucada!

"As raízes do nosso amor"

Amo-te porque tudo em ti me fala de África,
duma forma completa e envolvente.
Negra, tão negramente bela e moça,
todo o teu ser me exprime a terra nossa,
em nós presente.

Nos teus olhos eu vejo, como em caleidoscópio,
madrugadas e noites e poentes tropicais,
- visão que me inebria como um ópio,
em magia de místicos duendes,
e me torna encantado. (Perguntaram-me: onde vais?
E não sei onde vou, só sei que tu me prendes...)

A tua voz é, tão perturbadoramente,
a música dolente dos quissanges tangidos
em noite escura e calma,
que vibra nos meus sentidos
e ressoa no fundo da minh'alma.

Quando me beijas sinto que provo ao mesmo tempo
o gosto do caju, da manga e da goiaba,
- sabor que vai da boca até às vísceras
e nunca mais acaba...

O teu corpo, formoso sem disfarce,
com teu andar dengoso, parece que se agita
tal como se estivesse a requebrar-se
nos ritmos da massemba e da rebita.
E sinto que teu corpo, em lírico alvoroço,
me desperta e me convida
para um batuque só nosso,
batuque da nossa vida.

Assim, onde te encontres (seja onde estiveres,
por toda a parte onde o teu vulto fôr),
eu te descubro e elejo entre as mulheres,
ó minha negra belamente preta,
ó minha irmã na cor,
e, de braços abertos para o total amplexo,
sem sombra de complexo,
eu grito do mais fundo da minh'alma de poeta:
- Meu amor! Meu amor!

Geraldo Bessa Victor (Angola)

Cacusso meu amigo, também, para ti...


Publicado por Maria Branco às 07:19 PM | Comentários (30) | TrackBack

Apelo para a Humanidade

Tivemos a tristeza de ver recentemente o Tsunami, causando uma grande destruição e vitimando um número inconcebível de pessoas em sete países da Ásia. Sabemos que esse tipo de facto é um acontecimento natural, porém havemos de analisar e acrescentar que a intensidade desse tsunami mostra-nos claramente que o desequilíbrio ambiental é, incontestavelmente, potencializador de forças naturais deste porte. Cabe a nós, definitivamente, uma reflexão séria sobre o assunto e buscarmos maneiras mais correctas de lidarmos com o espaço que vivemos, para que não sejamos nós os responsáveis por catástrofes desta natureza.

Nós blogueiros, propomos desde já, unirmo-nos em um alerta para a humanidade, e implantarmos cada um de nós, a nosso modo e em nosso ambiente, medidas práticas de mudanças!

É tempo de se falar abertamente. É tempo de se abordarem as questões em profundidade e não de forma restritiva. É tempo enfim, de se falar a sério sobre a questão ambiental e ecológica. Sobre a humanidade!

E com razão. É que cada vez mais se toma consciência de que o combate pela preservação, não tem fronteiras, não é regionalizável e de que a resposta ou é global ou não será resposta.

As chuvas ácidas, o efeito de estufa, a poluição dos rios e dos mares, a destruição das florestas, não têm azimute nem pátria, nem região. Ou se combatem a nível global ou ninguém se exime dos seus efeitos.

As pessoas ainda respiram. Mas por quanto tempo?

Os desertos ainda deixam que reverdejem alguns espaços estuantes de vida. Mas vão avançando sempre.

Ainda há manchas florestais não decepadas nem ardidas. Mas é cada vez mais grave o deficit florestal.

Ainda há saldos de crude por extrair, de urânio e cobre por desenterrar, de carvão e ferro para alimentar as grandes metalurgias do mundo. Mas à custa de sucessivas reduções de reservas naturais não renováveis.

Na sua singeleza, o caso é este:

Até agora temos assistido a um modelo de desenvolvimento que resolve as suas crises crescendo cada vez mais. Só que quanto mais se consome, mais apelo se faz à delapidação de recursos naturais finitos e não renováveis, o que vale por dizer que não é essa uma solução durável, mas ela mesma finita em si e no tempo que dura. Por outras palavras: é ela mesmo uma solução a prazo.

Significa isto que, ou arrepiamos caminho, ou a vida sobre a terra está condenada a durar apenas o que durar o consumo dos recursos naturais de que depende.

Não nos iludamos. A ciência não contém todas as respostas. Antes é portadora das mais dramáticas apreensões.

O que há de novo e preocupante nos dias de hoje, é um modelo de desenvolvimento meramente crescimentista – pior do que isso, cegamente crescimentista – que gasta o capital finito de preciosos recursos naturais não renováveis, que de relativamente escassos tendem a sê-lo absolutamente. E se podemos continuar a viver sem urânio, sem ferro, sem carvão e sem petróleo, não subsistiremos sem ar e sem água, para não ir além dos exemplos mais frisantes.

Daí a necessidade absoluta de uma resposta global. Tão só esta necessidade de globalização das respostas, dá-nos a real dimensão do problema e a medida das dificuldades das soluções. Lêem-se o Tratado de Roma, O Acto Único Europeu e mais recentemente as conclusões da Conferência de Quioto, do Rio de Janeiro e Joanesburgo, onde ficou bem patente a relutância dos países mais industrializados, particularmente dos Estados Unidos, em aceitar a redução do nível de emissões. Regista-se a falta de empenhamento ecológico e ambiental das comunidades internacionais e dos respectivos governos, que persistem nas teses neoliberais onde uma economia cega desumanizada e sem rosto acabará por nos conduzir para um beco sem saída.

Por outro lado todos temos sido incapazes de uma visão mais ampla e intemporal. Se houver ar puro até ao fim dos nossos dias, quem vier depois que se cuide!... e continuamos alegremente a esbanjar a água do cantil.

Será que o empresário que projectou a fábrica está psicológica ou culturalmente preparado para aceitar sem sofismas nem reservas as conclusões de uma avaliação séria do respectivo impacto ambiental?
Mesmo sem sacrificar os padrões de crescimento perverso a que temos ligados os nossos hábitos, há medidas a tomar que não se tomam, como por exemplo:

# Levar até ao limite do seu relativo potencial o uso da energia solar e da energia eólica.
# Levar até ao limite a preferência da energia hidráulica sobre a energia térmica.
# Regressar à preferência dos adubos orgânicos sobre os adubos químicos.
# Corrigir o excessivo uso dos pesticidas.
# Travar enquanto é tempo a fúria do descartável, da embalagem de plástico, dos artigos de intencional duração.
# Regressar ao domínio do transporte ferroviário sobre o rodoviário.
# Repensar a dimensão irracional do transporte urbano em geral e do automóvel em particular.
# Repensar, aliás, a loucura em que se está tornando o próprio fenómeno do urbanismo.
# Reformular a concepção das cidades e das orlas costeiras


Dito de outro modo: a moda política tende a ser, um constante apelo às terapêuticas de crescimento pelo crescimento. È tarde demais para desconhecermos que, quando a produção cresce, as reservas naturais diminuem.

Há porém um fenómeno que nem sempre se associa ás preocupações da humanidade. Refiro-me à explosão demográfica.

Com mais ou menos rigor matemático, é sabido que a população cresce em progressão geométrica e os alimentos em progressão aritmética. Assim, em menos de meio século, a população do globo cresceu duas vezes e meia !...
Nos últimos dez anos, crescemos mil milhões!... Sem grande esforço mental, compreendemos aonde nos levará esta situação.

Se é de um homem mais sensato e responsável que se precisa, um homem que olhe amorosamente para este belo planeta que recebeu em excelentes condições de conservação e está metodicamente destruindo; de um homem que jure a si mesmo em cadeia com os seus semelhantes, fazer o que for preciso para que o ar permaneça respirável, que a água seja instrumento de vida e dela portadora, e os equilíbrios naturais retomem o ciclo da auto sustentação, empenhemo-nos desde já nessa tarefa, com persistência e determinação.


Se é a continuação da vida sobre a terra que está em causa, e em segunda linha a qualidade de vida, para quê perder mais tempo?...

Por isso apelamos a todos quantos se queiram associar a este movimento pela preservação Natureza, pela Paz e pelo desenvolvimento harmonioso da Humanidade, para subscreverem este Apelo.

Ao fazê-lo estamos a afirmar a nossa cidadania, enquanto pessoas livres, que olham com preocupação o futuro da Humanidade, o futuro dos nossos filhos!

Lista de Subscritores

Publicado por Maria Branco às 01:37 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 14, 2005

Tango...


by Emilio de Sousa

Tão depressa corre como é lenta a melodia
E o tom plangente do acordeon comanda os gestos dos nossos corpos unidos.
Abraças-me de tal modo que o teu braço livre te envolve o pescoço
Rodeando-o integralmente num amplexo de posse. Neste momento és só meu.
A tua face, colada à minha, como que pretende penetrá-la para melhor me sentir.
Por instantes quedamo-nos suspensos numa qualquer nota sustenida
Para logo em seguida encetarmos uma quase marcha
Que culmina numa imobilidade de estátua, efémera, mas viva.
Rodopio agora para um e outro lado, sem nunca te largar
Como num ritual, percorremos todas as direcções.
O acorde final encontra-nos, reclinada eu, debruçado tu, olhos nos olhos,
Num contacto intenso de posse mútua.....

    Rodrigo Leão - Pasión

A ouvir: Passión de Rodrigo Leão

Publicado por Maria Branco às 10:10 PM | Comentários (28) | TrackBack

janeiro 12, 2005

Abraço [s]

Abraça-me nos braços
E não queiras partir
São tão longos os braços dos abraços
E tão forte este desejo de fugir
Fico assim oscilando indecisa
Entre a explosão de nascer
E o medo de existindo
Me julgar partir ficando
Pensando ficar partindo
Lágrimas que se calam chorando
E depois se choram sorrindo

Abraça-me nos braços
E não queiras partir...


Sim! Abraço-te...

Abro-te os braços para que encontres neles o carinho que buscas
Ofereço-te um sorriso para que esqueças as lágrimas
Beijo-te as feridas para que sintas alívio
Sento-te no colo para que descanses
Embalo-te para que adormeças
Abraço-te...
E os meus braços tornam-se longos para que a dádiva
Que a ternura habita seja espuma no limite
Além das ondas...

Este último abraço foi publicado no Cumplicidades em 16/08/04.

Publicado por Maria Branco às 07:11 PM | Comentários (43) | TrackBack

janeiro 10, 2005

Da Espera...

(...)
Quiseste o mar só para ti.
E a lua toda.
E os teus olhos pérolas, onde já não havia espuma no escorrer das rochas.
Perdi-me de silêncios.
E a tuas mãos perceberam nada, do deslizar da morte no meu corpo.
Recolhi as velas.
Apaguei na areia o oscilar das sombras da lua.
Trazia espuma nos olhos.
Pedi ao sol para não nascer.
E voltei a sentar-me nas rochas à espera do mar...

Maria


Caminho pelo lado da rebentação das ondas ―
o litoral guarda segredo dos meus passos entre
as redes de sal trazidas pelos barcos
e o labirinto das algas ainda agora oferecidas

à praia. Sinto-me à mercê das falésias a riscar
o teu nome na areia; e é como se lentamente
pronunciasse um chamamento triste a que ninguém
acode. Fez-se tarde para os lamentos das sereias:

agora as marés dobam novelos de espuma à roda
dos meus pés, as águas já não transportam
a minha voz, a perder-se sobre as dunas
que os ventos vão desbastando devagar

ao cair da noite. Tenho sempre medo que não voltes.

Maria Do Rosário Pedreira


Publicado por Maria Branco às 07:04 PM | Comentários (44) | TrackBack

Quero..

Não, não quero voar contigo.
As alturas nada me dizem...
Não, não quero passear contigo na praia.
O vento, o mar e a areia estão a mais...

Quero...

Simplesmente ter-te ao pé de mim.
Onde te possa agarrar e muito naturalmente sentir a matéria que ocupa esse teu espaço
Tão exclusivo e especial.
Acredito que se nos apertarmos bem,
Ficaremos suficientemente ligados para que se nivelem as felicidades respectivas
Como líquido em vasos comunicantes.
És também carne, ossos e pele que conformam uma cabeça, um tronco, membros.
Acariciando todos eles o meu corpo conhece a alma que comanda o teu, e o teu, a minha.
Isto feito, demos asas então a uma imaginação poética mais verdadeira
Que se manifestará emocionalmente mais eloquente e duradoura,
Pois o amor romântico acontece entre dois seres de corpo e espírito simultâneos...

Publicado por Maria Branco às 12:07 AM | Comentários (24) | TrackBack

janeiro 06, 2005

A Ti....

Lembro-me das nossas conversas.

Lembro-me que te ouvia sempre com a mesma avidez, como quem bebe água para matar a sede. Nunca consegui saciar a sede das tuas palavras. Quanto mais te ouvia mais a minha sede aumentava...
Escutava-te qual menina deleitada ouvindo histórias de encantar, histórias de príncipes e princesas, de castelos e finais felizes.
Tinhas essa capacidade de me deslumbrar a cada palavra e o mundo parava quando te ouvia.
Nada mais acontecia para além do espaço e do tempo em que a tua voz me falava.
Lembro-a serena e suave enquanto me sussurravas histórias em que nós dois éramos as personagens principais, e em que prevíamos uma infinidade de ditosos epílogos.

Se tu soubesses as saudades que tenho dela, de todas as palavras e sorrisos que trocávamos, de todas as que ficaram por dizer.

Depois, existiam aquelas palavras pequeninas, que me enchiam completamente. Tão pequeninas, e tão cheias de significados que só nós conhecíamos, que só nós entendíamos. Ainda oiço a tua voz cálida a sussurrar-me ao ouvido cada uma como se fosse um beijo, um abraço de infinita ternura.

Se tu soubesses a sede que tenho dessas tuas palavras que eram apenas nossas.

E hoje, quando apenas oiço a tua voz no silêncio da tua ausência, sei o quanto ficou por dizer, uma vida por contar, a tua, a minha, a nossa.

Se tu soubesses a sede que tenho de todas as palavras que nunca dissemos.

E neste vazio ainda tão cheio de ti, dou por mim a dizer-te como se estivesses aqui ao meu lado, como se nunca tivesses ido embora e me pudesses ouvir :

– Meu querido irmão, apesar desta tão grande saudade da tua voz, não necessitamos gastar mais palavras pois hoje as nossas
conversas se fazem sem elas, como é mister da comunicação das almas...

Publicado por Maria Branco às 04:09 PM | Comentários (50) | TrackBack

janeiro 05, 2005

Da Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Foto de: ognid

Esta noite poderia escrever-te os versos mais tristes
como Pablo Neruda
ou dizer-te da minha recorrente vontade de ir a Samarcanda
como Bernardo Soares
diversa apenas a vontade de ir a Samarcanda
porque a tua presença me seria imprescindível
eu que nem mesmo sei que língua falam hoje em Samarcanda
ou o que por lá estará hoje acontecendo

Porque a tua ausência te cala em mim
poderia mesmo escrever-te uma carta de amar
que gritasse dentro de mim a tua ausência
e que no voo tangente das palavras
todos achariam ridícula
só eu não

- e daí quem sabe? -

Poderia imaginar-te silhueta
por entre silhuetas de pinheiros
feita de bilros e devaneios da Lua Cheia
derramando-se de luz ao longo de todo o mar
até tropeçar com o areal
e a terra toda
até envolver todos os amantes
que à beira-mar se consumam
como se o tempo se lhes acabasse ali como a terra
ou apenas se desesperam no amor
como se amassem apenas porque se procuram
quando o areal barra a luz fluida vertida pela Lua

poderia dançar contigo um tango argentino
conduzir-te na volúpia dessa dança
que
conforme dizem
ao homem compete conduzir
apenas para
e por uma vez só
te conduzir
eu de negro
Gardel
Terrível e alucinado
e tu
o teu vestido vermelho
rasgado com uma faca de seda
ambos efémeros, diáfanos e amantes
... se eu soubesse dançar

Ah, se eu soubesse dançar!

Poderia até tentar dizer-te um poema
que me impressionasse
apenas por te impressionar
um poema que falasse de Neruda
de Bernardo Soares
e de silhuetas diluídas nos pinheiros
mas que tivesse um lugar íntimo
para as estrelas de outros céus imaginados
luas
amores
e areais de vento
um lugar que nos enleasse no ritmo das marés
e seríamos românticos e dramáticos personagens de Pratt
solitários navegantes numa paixão de quimeras
Maltese com um brinco a preto e branco
vendo o Sol poente enfunando as nossas velas
com cores de luz que o Sol traz do mundo todo

E é por isso
que aqui estou
perto de ti
tenho as mãos quase cheias de nada para te dar
mas tenho um mar que não é meu
e um poema
sinto a Lua que nos foge entre os pinheiros
sinto ânsias de enleio em doce tango argentino
e hei-de sentir-te junto a mim em Samarcanda

OrCa

Publicado por Maria Branco às 12:29 AM | Comentários (27) | TrackBack

janeiro 03, 2005

Sou...

Sou Búzio Desenhado em sons de mar

Sou a que sente a maresia quando me amas
Enrolando-te em sonhos e alva espuma
E, quando de novo tu me chamas
Trocamos os corpos até que caia de espanto a bruma…

Sou o tempo que nos arrasta
Rolando nas vertigens do corpo meu

Sou o búzio que afagas
Que moldas com as tuas mãos
De ondas salgadas e luar de esperanças…

Maria

Ondas que descansam no seu gesto nupcial
abrem-se caem
amorosamente sobre os próprios lábios
e a areia
ancas verdes violetas na violência viva
rumor do ilimite na gravidez da água
sussurros gritos minerais inércia magnífica
volúpia de agonia movimentos de amor
morte em cada onda sublevação inaugural
abre-se o corpo que ama na consciência nua
e o corpo é o instante nunca mais e sempre
ó seios e nuvens que na areia se despenham
ó vento anterior ao vento ó cabeças espumosas
ó silêncio sobre o estrépito de amorosas explosões
ó eternidade do mar ensimesmado unânime
em amor e desamor de anónimos amplexos
múltiplo e uno nas suas baixelas cintilantes
ó mar ó presença ondulada do infinito
ó retorno incessante da paixão frigidíssima
ó violenta indolência sempre longínqua sempre ausente
ó catedral profunda que desmoronando-se permanece!

António Ramos Rosa

Publicado por Maria Branco às 06:30 PM | Comentários (37) | TrackBack

janeiro 01, 2005

Vem...

Quando vens, trazes o sol e a ternura.
São os teus olhos que me despertam
E me oferecem o aroma da vida.
É a doçura inquieta das tuas mãos
que veste os meus sonhos.
O momento que espero é este,
Quando vens antes de mim e dos sentidos.
Quando me confidencias as tuas saudades,
e os caminhos por onde me levaste,
nas tuas ausências…
Quando me trazes a Primavera,
e enches de cor a minha vida
...

Maria




Foto de Ognid

(…)

Perfil de primavera
Nas mãos que eu ergo acima desta ausência.

O meu sangue desperta, cria raizes no teu sangue
Nos jardins desertos da nossa solidão.

As minhas mãos, as tuas mãos, os corpos abraçados
E a única cidade construida para o nosso amor:

Nua, inquieta.
Clandestina.

A tua boca no meu peito. Os beijos
Demorados. E todos os silêncios.

As ruas que eu abri no teu olhar
Começam nos meus dedos.

Vem.
Eu amo-te.

Joaquim Pessoa


Publicado por Maria Branco às 07:49 PM | Comentários (36) | TrackBack