« Sou... | Entrada | A Ti.... »
janeiro 05, 2005
Da Ausência
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Foto de: ognid
Esta noite poderia escrever-te os versos mais tristes
como Pablo Neruda
ou dizer-te da minha recorrente vontade de ir a Samarcanda
como Bernardo Soares
diversa apenas a vontade de ir a Samarcanda
porque a tua presença me seria imprescindível
eu que nem mesmo sei que língua falam hoje em Samarcanda
ou o que por lá estará hoje acontecendo
Porque a tua ausência te cala em mim
poderia mesmo escrever-te uma carta de amar
que gritasse dentro de mim a tua ausência
e que no voo tangente das palavras
todos achariam ridícula
só eu não
- e daí quem sabe? -
Poderia imaginar-te silhueta
por entre silhuetas de pinheiros
feita de bilros e devaneios da Lua Cheia
derramando-se de luz ao longo de todo o mar
até tropeçar com o areal
e a terra toda
até envolver todos os amantes
que à beira-mar se consumam
como se o tempo se lhes acabasse ali como a terra
ou apenas se desesperam no amor
como se amassem apenas porque se procuram
quando o areal barra a luz fluida vertida pela Lua
poderia dançar contigo um tango argentino
conduzir-te na volúpia dessa dança
que
conforme dizem
ao homem compete conduzir
apenas para
e por uma vez só
te conduzir
eu de negro
Gardel
Terrível e alucinado
e tu
o teu vestido vermelho
rasgado com uma faca de seda
ambos efémeros, diáfanos e amantes
... se eu soubesse dançar
Ah, se eu soubesse dançar!
Poderia até tentar dizer-te um poema
que me impressionasse
apenas por te impressionar
um poema que falasse de Neruda
de Bernardo Soares
e de silhuetas diluídas nos pinheiros
mas que tivesse um lugar íntimo
para as estrelas de outros céus imaginados
luas
amores
e areais de vento
um lugar que nos enleasse no ritmo das marés
e seríamos românticos e dramáticos personagens de Pratt
solitários navegantes numa paixão de quimeras
Maltese com um brinco a preto e branco
vendo o Sol poente enfunando as nossas velas
com cores de luz que o Sol traz do mundo todo
E é por isso
que aqui estou
perto de ti
tenho as mãos quase cheias de nada para te dar
mas tenho um mar que não é meu
e um poema
sinto a Lua que nos foge entre os pinheiros
sinto ânsias de enleio em doce tango argentino
e hei-de sentir-te junto a mim em Samarcanda
Publicado por Maria Branco às janeiro 5, 2005 12:29 AM
Trackback Pings
TrackBack URL para esta entrada:
http://cumplicidadespartilhadas.weblog.com.pt/privado/mt-tb.cgi/50758
Comentários
O mel de samarcanda que se prestava a este imaginário de viagem pelas viagens da pequena Apies ao Rhododendros.
Mel de samarcanda é preciso! uma viagem essencial diga-se.
Publicado por: 1bigonobalcão em janeiro 8, 2005 09:22 AM
:) lindissimo...Sophia....Orca...Ognid...tu.
Publicado por: Luna em janeiro 7, 2005 08:19 PM
Não tenho mais nada a acrescentar ao que já foi dito.. apenas que ler-vos foi um momento de rara beleza, que agradeço ao Orca e a ti.
Beijo aos dois,
Ana Maria
Publicado por: aguas de marco em janeiro 6, 2005 12:49 PM
Belíssimos poemas, Maria. Só o que posso dizer: que amei e que sinto um prazer imenso em percorrer cada verso publicado no que cantinho de sentimentos. Beijinhos, obrigada pelo presente e parabéns pela imagem tb linda. Beijinhos da Anne
Publicado por: anne em janeiro 6, 2005 11:59 AM
Hum...também andas com a ausência e com a Sophia. Coincidência. Ou talvez não, Maria :) Beijo. Dia muito feliz
Publicado por: yardbird em janeiro 6, 2005 11:52 AM
Sophia..cheiro a mar com sabor a azul
Um beijo para ti Maria **
Publicado por: Black Rose em janeiro 6, 2005 11:42 AM
Um poema arrebatador, uma imagem sublime e tu... que és única!...
Beijo grande
Publicado por: Frog em janeiro 6, 2005 11:15 AM
Obrigado!
Publicado por: 1bigonobalcão em janeiro 6, 2005 10:33 AM
Não tem perdão... como pude andar tão distráido e não te reencontrar neste teu novo canto, mais cedo? fiquei triste com tamanha distracção minha, ultrapassada rapidamente pelo regozijo de te poder ler novamente... Um beijo e um abraço
Publicado por: Ivo Jeremias em janeiro 6, 2005 10:13 AM
Maria
(SPHERA SOLIDA- Leonardo da Vinci)
«"De Divina Proportione" 1498 Milano»
LUCA PACIOLI
Hoje com mais calma vou explicar a razão de reeditar um poema em que lá
colocaste flores.
Ontem, ao final da noite, fiquei bastante triste - fui proibido por e-mail
recebido daquela que deveria ser a minha associação - a Associação dos Doentes
de Parkinson de Portugal, de editar artigos sobre a minha doença publicados na
revista DELES....
Ontem, depois de lá ter colocado mais um poema, no meu livro de poesia, resolvi
puxar para cima um soneto que escrevi quando descobri a minha doença.
Amargurado, retirei o artigo de promoção à tal associação, retirei a foto,
digitalizei “Il codice qui riprodotto in facsimile ripropone integralmente l´
esemplare conservato presso La Biblioteca Ambrosiana di Milano del “De Divina
Proportione” terminato nel 1498”
Resumindo estava triste mas redescobri o livro que me ofereceram em Itália há
uns anos e que tem magníficas reproduções de desenhos de Leonardo da Vinci pouco
conhecidas. O livro é de Luca Passioli.
Resultado: não me deixaram editar fotos e artigos de Parkinson e nem sequer me
aceitaram como sócio desta Associação e eu redescobri e dei a conhecer, e irei
dando a conhecer, soberbos desenhos sobre matemática de Leonardo com a minha
poesia.
Vou acabar. Deus é grande… e os homens bem pequeninos: uns mais outros não. EU
prefiro os maiores.
Finalizo. Obrigado pelo retorno e pelo teu constante apoio.
A amizade só o é quando é imensa e nem a força de um maremoto a destrói.
Um beijo! Já recuperei alguma força depois de ter acusado seriamente o choque de
ontem.
TAMBÉM ESTOU AQUI SEMPRE PARA TI!!!!!
Rogério simões
Publicado por: Romasi em janeiro 5, 2005 11:43 PM
hello Maria.....nice poem....I want you to get more personal though....I want you to write a post without a poem.....go with it, have fun....
By the way....this is your new site right? I need to update my list.....
Publicado por: justanothernickname em janeiro 5, 2005 08:53 PM
Que posso dizer que não tenha já sido dito? Este poema do OrCa fez-me ficar absolutamente muda quando o li pela primeira vez. Muda de espanto e emoção. Aqui tu conseguiste conjugar tudo na perfeição. Um beijinho grande.
Publicado por: lique em janeiro 5, 2005 08:47 PM
Uma simbiose perfeita entre a imagem e o poema, e a magistral Sophia que fica sempre bem..., adorei!
Beijo aos 3
Publicado por: Mar Revolto em janeiro 5, 2005 07:38 PM
Maria, querida, estas parcerias, a cada dia que passa, mais me agradam. Vejo cá pessoas que tive o imenso gosto em conhecer, pessoas que há muito acompanho o trabalho (os blogs) e a consensual Sophia nesta tua, também, bela escolha. Uma partilha que acho tem muito a acrescentar à blogosfera. Longe, muito longe, da superficialidade, de um fazer de conta... Pelo contrário, cheio de um somatório de vários talentos, de pessoas com contributos reais a oferecer-nos. Um beijo para todos.
Publicado por: Lia em janeiro 5, 2005 12:37 PM
«tenho as mãos quase cheias de nada para te dar»
... fiquei rendido.
Um abraço,
el P
Publicado por: el P em janeiro 5, 2005 12:35 PM
Obrigado mais uma vez!
Publicado por: em janeiro 5, 2005 11:46 AM
Perdoa a minha falta de assiduidade mas tenho o meu pai no hospital...e está tudo a ser muito complicado! BShell
Publicado por: blueshell em janeiro 5, 2005 11:28 AM
Samarcanda sugere-me sempre nostalgia de viagens a locais onde nunca estive. Faz parte de um imaginário que gostaria que, em vez de o ser, fosse memória. Bela escolha. Um beijo.
Publicado por: Emilio de Sousa em janeiro 5, 2005 11:26 AM
Lindo. sempre.
(já fui a Samarcanda. Valeu!)
Bjs.
:)
Publicado por: náufrago em janeiro 5, 2005 10:13 AM
A ausência dói sempre, mesmo que seja a ausência do vazio... que também faz falta para que saibamos dar valor a quando nos sentimos "cheios" por dentro ;) Bjs
Publicado por: ridufa em janeiro 5, 2005 10:07 AM
Vou pôr estes dois poemas, em forma de flores, na pintura que tenho à minha frente na parede... sempre os olhar vou lê-los novamente! Beijinhos grandes Maria
Publicado por: In loko em janeiro 5, 2005 05:01 AM
Maria... foi surpresa. É comoção. Há prendas assim, que nos caem no regaço, como rosas.
Nem sei como te dizer por me juntares ao "nosso" Ognid e à Sophia... Tento apenas sugerir-te a felicidade que tanta vez me tem proporcionado a partilha dos meus poemas.
Abraçar-te-ia, agora, com muita força.
Deixo-te um beijo. E as rosas... claro, terão de ser vermelhas!
Publicado por: OrCa em janeiro 5, 2005 12:46 AM
ORCA - Achei o teu poema de uma beleza rara...
«E é por isso
que aqui estou
perto de ti
tenho as mãos quase cheias de nada para te dar(...)»
É magestral a forma que nos destes para sentir a ausência!
Obrigada à Maria, por ser a sensibilidade edificada!
Jinhos
Publicado por: Blue em janeiro 5, 2005 12:30 AM
É assim, eu estava para aqui às voltas a pensar que não podia despejar um comentário de qualquer maneira perante um post destes. Mas afinal, não há nada de especial. O poema da Sophia é lindo, o do Orca é, dos que conheço dele, o que mais gosto. Combinaste-os com aquela mestria e aquela sensibilidade tão especial que apenas tu tens. Só te posso agradecer por teres utilizado uma fotografia minha neste post. Beijos grandes minha amiga.
Publicado por: ognid em janeiro 5, 2005 12:13 AM
Maria, que genial escolha fizeste, amiga. A tua sensibilidade é incrível. Juntaste Sophia de Mello Breyner , uma maravilhos foto de Ognid e um dos melhores poemas do Orca. Por isso só podes ter o mar, o Sol a Lua em ti:) beijocas*
Publicado por: wind em janeiro 5, 2005 12:00 AM
Ognid, o meu muito obrigada pela fotografia, é lindissima e perfeita.
OrCa, este é sem dúvida um dos poemas mais belos que já li sobre a Ausência. O meu muito obrigada por partilhares a tua poesia conosco!
Beijos aos dois!
Publicado por: Maria Branco em janeiro 4, 2005 11:59 PM
Como quem anda no campo colhendo flores, assim és tu com os poemas que juntas em ramos de sentidos suaves.
Beijo grande
Publicado por: Pedro Emanuel em janeiro 4, 2005 11:51 PM