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dezembro 30, 2004

E se um dia...


Traços de TCA


E se um dia já não quizeres ser marinheiro no lago da minha boca?
A pergunta oscilou na lua cheia, recortando desenhos de medo no ramalhar das árvores.
Como se fosse possível parar a fúria dos meus dedos e o cheiro de ti, que deixava entrar-me no corpo.
Rasgava-se a ternura. Era o encontro. O raro encontro de nós, espalmado no percurso nervoso das minhas mãos. Ávidas de trajectos, no contacto com a tua pele. Na entrega da ternura. Na asfíxia do silêncio. Quando os dedos se enrolavam nas palavras. Na comunhão do sentir. O mesmo vibrar de lua, oscilando no reflexo dos teus olhos de perguntar.
Não era possivel nem o engano, nem a mentira. Que essa sente-se no ar, no perfume dos corpos, no hesitar das bocas, no receio dos dedos em dádivas retraidas.
E foi por essa verdade, essa ternura lavada do teu aceitar, que a minha entrega se tornou paralela e te ondulava o corpo na frequência do teu agora.
Aceitei soltar-me de mim, repousar a minha segurança nas tuas mãos, e fixar nos pilares das tuas palavras a certeza do amanhã.
Perfurava-me a vertigem do medo que me empurrava, acreditando nas gotas de dádiva que os teus olhos deslizavam.
Depois quando o céu se fez azul e as gaivotas dos sonhos oscilavam no zigue-zague do vento, deixei que me partissem dos dedos as caravelas da ternura. Sulcaram mares na espuma do trajecto dos lemes da saudade.
Fizera-se azul o céu, amor. Eram possíveis todas as descobertas e todos os encontros.
Até que subitamente a lua se escondeu e o mar secou. As caravelas de vento adormeceram no deserto.
Os meus dedos subiram mastros inúteis à procura das lágrimas do mar.
Os meus olhos não mais encontraram os teus...

Publicado por Maria Branco às 02:57 PM | Comentários (39) | TrackBack